De volta à Argélia

País estranho...

Quando estive aqui em 2007 costumava contar os dias para o término do contrato. Este lugar é muito estranho e cheio de particularidades. Começando pelo visto. Da outra vez que estive aqui eu era a primeira brasileira a trabalhar no Sheraton, e logo nem eu, nem os empresários tínhamos noção do quanto era complicado para fazer o visto. Para vocês terem uma idéia, eles pedem entre os documentos necessários, certidão de nascimento, (além do passaporte), mas em português e francês. Certificado de escolaridade em português e francês. E o currículo de dançarina em francês. Em 2007 eu estava no Líbano, e, além disso tudo, a embaixada da Argélia no Líbano pediu um certificado de nacionalidade, que eu precisei pegar na Embaixada Brasileira. Não me perguntem se meu passaporte não comprovava que sou brasileira, porque até hoje eu me faço essa pergunta.

Ok. Desta vez foi mais fácil. Eu já sabia os documentos que precisaria, já sabia da burocracia e estaria no Brasil antes de vir pra cá, o que me deu a possibilidade de pegar meu visto na embaixada da Argélia no Brasil. Meu contrato começou só no dia 24 de setembro, mas a função do visto teve início ainda em maio. É muito estranho quando a gente pensa que o visto para Dubai chega a sair em dois dias, no máximo quatro.

Organizada a papelada, mandei por e-mail para o Sheraton que depois de quase três meses me mandou via DHL outra papelada, para o Brasil, que eu deveria apresentar na embaixada. Fui a Brasília. Foi também oportunidade de rever Sabrina e Tayssa, minhas amigas de longa data, que conheci através de Michael Jackson (quer dizer, de um fã clube do Michael Jackson, há uns 13 anos atrás). Na embaixada, embora o hotel tenha pedido um visto de cinco meses, eles deram apenas para três meses e disseram que era o máximo permitido.

Chegando aqui, eles decidiram fazer um visto residente para mim. Hoje me levaram para fazer exames. Como tudo aqui tem que ser estranho... eu diria que a clínica que me levaram é “boa”. Eu mesma não iria num lugar como aquele no Brasil. A menina do departamento de Recursos Humanos me acompanhando o tempo todo, pois eles não falam inglês.

Para tirar sangue... o procedimento foi normal... mas eles não usam a seringa tradicional, a agulha vem anexada num caninho, que já passa o sangue direto pro tubo. Só que fiquei chocada com o que vi, e eu não pude deixar de comentar com a pessoa que estava me acompanhando: a enfermeira não usou luvas!!! Ela passou álcool nas mãos antes de me atender. Mas como eu disse não é seringa, é uma agulha com um caninho, se ela tivesse usado apenas um tubo, mas ela usou três e nesta transição, eu vi que um pouquinho de sangue sujou o dedo dela. Vocês conseguem imaginar isso? Agora pensem em quantas pessoas ela deve atender por dia, por semana, por mês, sem luvas, tendo contato direto com o sangue destas pessoas na pele dela... sinistro demais.

Mas nem tudo é estranho na Argélia. Se fosse, eu não teria voltado. Este é um dos melhores hotéis que trabalhei nestes três anos fora do Brasil. A comida é maravilhosa. Comida quase sempre é um problema. Os doces argelinos são os melhores que já comi na vida. Em relação ao trabalho, é muito tranqüilo, e as pessoas respeitam a minha privacidade, o que nem sempre é comum. Tenho certeza que serão dias diferentes e sossegados num país um pouquinho estranho.