Último dia em Bahrain


O último dia de trabalho no contrato que precede o Ramadan é sempre uma incógnita. O motivo da dúvida é que o Ramadan não tem data certa para começar: depende da lua. Isso acaba causando muito stress para os artistas, pois Ramadan é sinônimo de férias e férias exige uma certa programação: passagem, receber o último salário, organizar malas, etc. Meus últimos dias em Bahrain foram de certa forma engraçados no que diz respeito à organização da minha viagem. Eu já tinha uma passagem marcada para o Líbano para dia 10 de agosto, mas ninguém sabia de fato se o último dia seria dia 10. E se não fosse? Eu não queria ficar 2 ou 3 dias em Bahrain naquele calorão sem ter o que fazer. 

Perguntei para o gerente do restaurante sobre o último dia. Ele não sabia, disse para eu perguntar para o Gerente Geral. Perguntei para o gerente que cuidava de todos os restaurantes do hotel. Ele também disse para eu perguntar para o Gerente Geral. Perguntei para a secretária do Gerente Geral. Ela também não sabia. Resolvi esperar pois sei que o Gerente Geral é muito ocupado, não queria incomodar. Mas com o passar dos dias, a situação se inverteu. O caixa do restaurante me perguntou se eu sabia quando era o último dia. O cantor, o Gerente dos Restaurantes, todos me perguntavam. Eu disse que não sabia. O caixa chegou a me pedir para perguntar para o gerente do restaurante. Eu disse que ele deveria perguntar, não eu. Eu estava já ficando irritada com eles, por que perguntavam pra mim? Até que o segurança me explicou que se o artista sabe quando é o último dia, é uma resposta “certa” pois eles precisam preparar as passagens e tudo mais. 

A princípio terminaria na sexta-feira dia 6 de agosto. Estipularam nossa viagem para o dia 8. Mas como o restaurante lotou no dia 6, resolveram abrir no dia 7 também. Fui trocar minha passagem. Não consegui porque havia comprado numa tarifa especial. Tinha duas opções, ou esperava até dia 10 ou comprava uma nova passagem. Consegui uma tarifa especial e decidi comprar outra. Tudo certo, passagem comprada, só faltava receber meu salário. O detalhe é que sexta e sábado os bancos fecham em Bahrain e eu viajaria no domingo. Eles não tinham o dinheiro para me entregar na tarde de sábado. E argumentaram que não prepararam antes o dinheiro porque não sabiam quando era o último dia. Disseram que me pagariam a noite, que o caixa do restaurante me pagaria. Achei estranho este procedimento e decidi ligar para o Gerente Geral para ver se era isso mesmo. Ele me disse para eu ficar tranqüila que esse procedimento era normal. Desliguei o telefone e em menos de um minuto ele me ligou de volta e me perguntou “Você trabalha hoje?” Eu respondi “Sim, me disseram que o restaurante abre hoje”. O que me causou mais espanto foi o gerente perguntar para a bailarina se o restaurante iria funcionar. Mas tudo bem. O restaurante estava lotado no meu último dia. Várias pessoas pediram para tirar fotos comigo. Me pagaram conforme o combinado, tudo correu bem. No dia seguinte deixei o calorão de Bahrain e fui para o Líbano para participar de um Festival. Apesar do tédio, o trabalho foi muito bom, o restaurante esteve cheio quase todos os dias e mesmo com esses pequenos contratempos foi legal de trabalhar de novo em Bahrain.