Estou em Bahrein há 10 dias. Cheguei e já dancei no primeiro dia. Não há muita novidade para mim em trabalhar aqui: o hotel é próximo ao Regency, hotel em que trabalhei em 2008, na primeira vez que estive aqui. O gerente do restaurante era gerente do restaurante Pearl, em que trabalhei no ano passado. Bahrein por ser um país pequeno, todas as pessoas se conhecem, e os clientes dos lugares são sempre os mesmos. A banda eu não conhecia, mas já tinha uma noção de como eles eram através de conversas com outras bailarinas.
Os músicos são egípcios. O tecladista é ótimo músico e boa pessoa. Mas o derbaquista é um problema desde o meu primeiro dia. Para começar, ele não me dirigia a palavra, e estava decidindo meu show sem me consultar. Eu perguntei pra ele “porque” ele estava fazendo isso. Orgulhoso e cheio de si, ele disse que sabia os gostos dos clientes. Eu disse para ele que conhecia os clientes e que não era a primeira vez que eu estava em Bahrein. Ele até deu uma melhorada, mas se recusava a tocar algumas músicas e queria tocar outras que não faziam parte do programa do meu show. Falei para a gerência o que estava acontecendo.
Entreguei o programa do meu show para os músicos. Ele reclamou que não conseguia ler porque não estava escrito em caracteres árabes. Um supervisor do restaurante teve que escrever os nomes das músicas em caracteres árabes, para o “querido” poder ler.
Pedi músicas de George Wassouf, Saber Rebai, Wael Jassar. Ele disse que não sabia porque estes músicos não são egípcios, e ele gosta de tocar músicas egípcias. Pedi uma música famosa inclusive no Brasil, do Amir Diab, ele não sabia. Eu disse “mas ele é egípcio como você”. Ele disse que existem muitos cantores no Egito.
Não parou por aí. No final de semana o restaurante estava lotado. Fui dançar entre as mesas, e claro que para poder dar atenção para todos demorei. Mas isso é normal. Muito normal. Eu poderia ficar 20, 25 minutos dançando entre as mesas que seria normal. Ele reclamou. Aí perdi a paciência. Disse para ele que ele sempre arruma problema e sempre coloca defeito em tudo, sempre tem alguma coisa pra falar. E para finalizar, disse que ele precisava entender que o show é meu e não dele.
A situação não melhorou depois disso, até piorou. Chegou a um ponto que tive que procurar o gerente do hotel para falar da situação, afinal ele começou a fazer tudo errado para prejudicar meu show. Aí o gerente me explicou que o problema deste músico é o seguinte: ele tem duas esposas. Uma não sabe da outra. Todo ano, antes do Ramadan, ele começa a fazer tudo errado porque tem a intenção de pegar 2 meses de férias, pois o plano dele é ficar 1 mês com uma esposa e depois ir para a esposa mais velha, durante o Ramadan, como se recém tivesse saído de Bahrein. Quer dizer, além de ele se achar “estrela” e um músico muito especial, ele quer motivos para ser mandado embora, sendo que depois, segundo o gerente, ele pede desculpas e pede para voltar.
Minha conversa com o gerente trouxe um bom resultado. Ele parou de me incomodar. Agora decido o show com o tecladista, que “informa” para ele o que será tocado. Não falo mais com ele. E ele conseguiu o que queria: irá embora em poucos dias, e um músico libanês virá no lugar dele.
Fora isso, os dias tem sido tranqüilos. Gosto de Bahrein, é um país de pessoas de bom coração.
