Daiane Vacaro na Tunísia


TUNÍSIA - País árabe da África do Norte vizinho dos países da Líbia, Argélia e Itália atravessando o Mar Mediterrâneo, um dos destinos das bailarinas Bellydance.

Para quem andou acompanhando as notícias dos primeiros meses desse ano pode conferir os tumultuados acontecimentos que se deram início na Tunísia e se espalharam como efeito dominó pelos países árabes. Por ter muitas lembranças boas neste país, decidi escrever este artigo em que vou contar um pouco da minha trajetória como Bellydancer baseando-me também nos fatos recentes que estão escrevendo a nova História do mundo árabe.

Alguns meses após ter sido avaliada pelo nosso querido empresário e sua esposa Omar e Olga Naboulsi, começo de 2006, dei início a minha carreira internacional rumo Abu Dhabi onde estendi meus planos e acabei ficando 2 anos seguidos cumprindo contratos entre os Emirados de Dubai e Abu Dhabi (sem contar o mês do Ramadan que geralmente viajo para o Brasil).

Após esses dois anos de experiências inesquecíveis tive uma surpresinha da vida, um momento que sem dúvida marcou a Daiane de antes e depois. Fui diagnosticada com câncer, um linfoma no mediastino. Uma palavrinha tão pequena mas que provoca uma reação monstruosamente forte e desconfortante. Graças a Deus tive um ótimo acompanhamento médico e fiz todo meu tratamento no hospital público dos Emirados e com total apoio das minhas amigas e colegas de trabalho, a compania da minha mãe e ainda pude dar continuidade com alguns shows esporádicos em Dubai, que mais do que nunca me enchiam de prazer e alegria.

Quando totalmente curada e liberada para trabalhar diariamente, estava tão grata por tudo na minha vida, mas como havia dito, já estava nos Emirados há mais de dois anos - no início tudo sempre é novidade, mas com o tempo sentia que algo fazia falta. Foi quando ao terminar um contrato, surgiu em minha programação, uma inauguração de um restaurante em Abu Dhabi novamente, mas inaugurações podem ser uma honra na sua carreira ou a maior bomba na programação de uma bailarina, já que trabalhamos todas para um mesmo empresário e quando uma encerra um contrato deve imediatamente ser levada ao contrato seguinte e normalmente essas inaugurações atrasam e são remarcadas inúmeras vezes. Foi quando Luciano, sobrinho do nosso empresário libanês Toros Siranossian que também trabalha no escritório, me informou sobre a mudança de planos, me dizendo para arrumar minhas malas para Tunísia, pois a inauguração estava sem previsão. Na hora entrei em pânico, pois a Tunísia tinha uma antiga fama de só contratar profissionais muito experientes. Além de que, após o tratamento havia perdido todo meu cabelo e fazia uso de perucas para trabalhar – o que dificultava muito para dançar – e nada mais, nada menos que 10 quilos na balança que adquiri na quimio. Nessa hora minha mãe teve que voltar ao Brasil e precisei enfrentar esse desafio sozinha, um pouco insegura mas com muita forca de vontade.

Em Junho de 2008 estava pela primeira vez em Tunísia e em pleno verão, onde pude respirar ar fresco sem a umidade dos Emirados Árabes. Foi a primeira bênção! O clima, a natureza, as pessoas, a cultura, tudo me encantou. Não é um país de primeiro mundo como os Emirados, mas foi um refúgio que me fez mudar os ares e até me fez lembrar o Brasil com o mesmo verão e inverno. Aliás, um verão super procurado por turistas de todos os cantos do mundo.

Outdoor do Festival do Ramadan em frente ao aeroporto de Tunis.

No trabalho eu estava muito empolgada, a bailarina não trabalha com banda com menos de oito integrantes e todos formados no Conservatório de Música. Enfim, meu receio de ser rejeitada acabou passando e a partir daí surgiu meu carinho especial por este lugar. O lugar onde renovou minhas energias proporcionou-me bons momentos na minha carreira e vida pessoal e onde o povo me recebeu de braços abertos, me aceitando da forma como eu estava, sem mesmo saberem como era minha aparência meses antes de eu passar pela quimioterapia, pois nosso trabalho além de exigir talento exige beleza. Daquele ano em diante retornei a Tunísia mais quatro vezes.

Com novos lugares, cidades, novas música para conhecer... sim, músicas também! "Mizuuid", o ritmo da música tunisiana não é popularmente conhecido nos demais países árabes. O que se torna mais uma coisa a aprender para toda bailarina que chega por lá, com alguns novos passos e ritmo para os ouvidos se familiarizarem e seguir. Assim como a música da Líbia que às vezes lembra o khaleege dos países do Golfo, mas tem suas peculiaridades nos movimentos e som e a música argelina quando não era o famoso estilo "RAI" eu as vezes usava passos marroquinos.


Show de abertura da cantora Nancy Ajram.

Meu último contrato em Tunis, foi recentemente e em meio a revolução. Vi de perto protestos, violência, saques e como muitos estrangeiros passei dias tentando sair do país, mas tive a honra de estar presente numa data que se tornou histórica, uma nova história dos países árabes. (Só me arrependo de ter dançado sem remuneração para a ex-primeira-dama e amigas em sua residência... mas enfim, ela já esta pagando pelo que merece.)

A Tunísia, um país com mais de onze milhões de habitantes, teve sua independência da França em 1956 e logo após em 1987 o famoso Ben Ali já entra no poder como o segundo presidente após a independência e se consolidou no governo por todos esses anos. Na minha visão não existe país democrático no mundo que tem aceitação unânime na escolha de seus governantes. O que víamos eram fotos do Senhor Presidente por todos os cantos, até bandeirinhas como nas nossas festas juninas lotando o país com fotos do presidente- me refiro fora de épocas eleitorais. E ninguém nunca ousava debater algo sobre governo. Para qualquer estrangeiro que visitasse a Tunísia parecia um país com seus problemas de desenvolvimento, mas todos mesmo assim contentes com suas condições.

O Youtube, por exemplo, um “powerful” canal de informação, era vetado. Nós brasileiros, temos noção do que é a liberdade, até mesmo às vezes infelizmente se tornando uma libertinagem, mas mesmo assim temos toda informação ao nosso alcance e direitos em que podemos lutar por aquilo que queremos e pensamos. E como o povo de países como Tunis, Egito, Líbia e outros poderiam ter? Se até mesmo os meios de comunicação eram censurados. Claro que a Tunísia, nem se compara com a ditadura em que vive o povo da Líbia. O pouco que sabia da Líbia era que por serem vizinhos da Tunísia, os líbios viajam muito pra lá, por NÃO existir “night clubs” na Líbia e o álcool terminantemente proibido. Então acabamos aprendendo meia dúzia de famosas músicas líbias, em que quando havia qualquer líbio presente a banda tocava incansavelmente, as vezes até mais de cinco vezes por noite. Sim, muito cansativo para os ouvidos, mas bom para o bolso de todos. Na Tunísia, existe um antigo costume de jogar dinheiro (a caixinha – tips) no palco ou no corpo (respeitosamente e dependendo da aceitação do artista) pra expressar sua satisfação com a apresentação, mas este costume nos últimos anos acabou se tornando o “business” forte das casas de shows na Tunísia, por viverem em um país com altos problemas de desenvolvimento e visarem aumentar os ganhos de forma fácil - espero que mais adiante a Tunísia volte a ter a mesma essência de poucos anos atrás. E também que todos os países em conflitos atinjam seus objetivos, pois temos muitos amigos e colegas espalhados por aí, e queremos paz logo!

A Líbia, um país com povo reprimido, com regras extremamente ultrapassadas e regime ditatorial, palco atual da violência.

Para se ter uma idéia, as poucas músicas tão conhecidas por nós, todas falam e idolatram o líder Moaamar Gadafi, onde qualquer líbio ao ouvir automaticamente ergueria seus braços pro ar e começaria a cantar bem alto como se tivesse o maior orgulho do mundo. Agora não sei se seria orgulho ou medo…

Dois pequenos trechos de canções líbias:

Jamahiriya... solta sha3biya... moaamar howwa Amir... amir il kawmiya.
Governo… com poder nas mãos do povo, Moaamar o príncipe, príncipe dos árabes.

Sallim aleik il akil... wykollak nibbik... amma khatawa ilrijil... sa3ib aleha tjik...
Winta ilghala ilmaktoob... winta ilwifa w akdarah... winta rifik ilsob... winta illi mishwarah
Sallim aleik il akil... Sallim aleik il akil... wilrijil la talat tiji.
Já esse trecho não tem uma tradução exata. Fala de como o povo adora seu líder e ninguém nunca conseguiria alcançar sua perfeição.

Bom, espero que tenham gostado do artigo, mas não precisam decorar a letra dessas canções, porque pelo visto elas já estão meio ultrapassadas! :)

Obrigada Jéssica Pulla e Priscila Fontoura que são as grandes amigas que mencionei que me apoiaram e muito durante meu tratamento. E Pri, segui as dicas do seu artigo sobre o Egito, foram preciosas, ainda bem que fui ao Egito um mês antes dos protestos começarem, pois é mais fácil sair de um país com 11 milhões de habitantes como Tunísia do que 80 milhões como no Egito...

Mas não se preocupem, atualmente estou no Líbano onde moro e trabalho e longe de todos os conflitos!

Sucesso a todos e espero encontrá-los no Aniversário da Escola Amarein em abril!!!!!

Beijos com carinho.

Daiane Vacaro.